Herança autossômica recessiva
Manifesta-se apenas em homozigose (aa); os heterozigotos são portadores assintomáticos. Padrão típico em heredogramas: pais normais podem ter filhos afetados, e a característica não distingue os sexos. É o padrão da maioria dos erros inatos do metabolismo.
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Na herança autossômica recessiva, o alelo mutante só produz efeito quando não há alelo selvagem compensando, de modo que a proteína funcional produzida pelo alelo normal, mesmo em dose única, costuma bastar para o funcionamento celular. Isso explica por que os portadores (Aa) são fenotipicamente indistinguíveis dos homozigotos dominantes (AA) na maioria dos casos, e por que a consanguinidade aumenta tanto o risco: casamentos entre parentes elevam a chance de dois portadores do mesmo alelo raro se encontrarem, sendo esse o clássico motivo pelo qual heredogramas de doenças recessivas raras, como a fibrose cística ou a fenilcetonúria, frequentemente mostram primos afetados.
Na fenilcetonúria, por exemplo, a deficiência da enzima fenilalanina hidroxilase impede a conversão de fenilalanina em tirosina; o acúmulo do aminoácido lesa o sistema nervoso e causa deficiência intelectual se a dieta não for restrita desde o nascimento — daí o teste do pezinho, que detecta a doença antes dos sintomas. Como não há gene no cromossomo X envolvido, homens e mulheres adoecem na mesma proporção, e o heredograma costuma exibir "saltos" de geração, com afetados surgindo de pais normais.
Dominar o heredograma e a lógica dos portadores assintomáticos resolve a maioria das questões.
Fenilcetonúria (PKU)
Deficiência da enzima fenilalanina-hidroxilase, que converte fenilalanina em tirosina. O acúmulo de fenilalanina é neurotóxico e causa deficiência intelectual se não tratado. Diagnosticada pelo teste do pezinho; o tratamento é dietético, com restrição de fenilalanina desde o nascimento — por isso adoçantes com aspartame trazem a advertência "contém fenilalanina".
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A fenilcetonúria ilustra bem como um único gene pode desencadear uma cascata metabólica. O gene PAH, no cromossomo 12, codifica a enzima que transforma o aminoácido essencial fenilalanina em tirosina, precursor de dopamina, adrenalina, melanina e hormônios tireoidianos. Na herança autossômica recessiva, só é afetado quem herda duas cópias mutadas, uma de cada genitor heterozigoto — os chamados portadores sadios, com risco de 25% a cada gestação. Sem a enzima funcional, a fenilalanina acumula no sangue e, em excesso, satura o transportador que a leva ao cérebro, competindo com outros aminoácidos e prejudicando a síntese de mielina e neurotransmissores; surgem então deficiência intelectual, convulsões, microcefalia e odor característico na urina.
Como exemplo concreto, pense em dois pais portadores assintomáticos: cada filho tem 25% de chance de nascer com PKU, 50% de ser portador e 25% de ser homozigoto normal.
Fibrose cística
Mutação no gene CFTR, que codifica um canal de cloro. Sua falha produz muco espesso e viscoso nos pulmões e no pâncreas, causando infecções respiratórias recorrentes e má digestão. É uma das doenças autossômicas recessivas mais comuns em populações de ascendência europeia.
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A fibrose cística ilustra bem o mecanismo da herança autossômica recessiva: o gene CFTR está no cromossomo 7, e só manifesta a doença quem herda dois alelos mutados, um de cada genitor. Pais heterozigotos (portadores de apenas uma cópia defeituosa) são fenotipicamente normais, mas têm 25% de chance, a cada gestação, de gerar filho afetado — daí a importância do aconselhamento genético quando há histórico familiar. O defeito compromete o transporte de cloro e água através das membranas celulares, tornando as secreções mucosas anormalmente viscosas, o que obstrui ductos pancreáticos e vias aéreas, favorecendo infecções por Pseudomonas aeruginosa e insuficiência pancreática com esteatorreia.
Como exemplo concreto, considere um casal sem sintomas cujo filho apresenta pneumonia de repetição, baixo ganho de peso e suor salgado — o teste do suor, com dosagem de cloreto acima de 60 mEq/L, associado à genotipagem, confirma o diagnóstico.