F1 · Aulas 7–8

Composição química dos seres vivos III

Ácidos nucleicos

Polímeros de nucleotídeos, cada um formado por fosfato, pentose e base nitrogenada. São dois: DNA, que armazena a informação genética, e RNA, que a expressa. Foram identificados como material genético pelos experimentos de Griffith, Avery e Hershey-Chase.

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Os ácidos nucleicos se organizam como cadeias polinucleotídicas em que cada nucleotídeo se liga ao seguinte por ligação fosfodiéster, estabelecida entre o fosfato do carbono 5' de um açúcar e a hidroxila do carbono 3' do açúcar seguinte; dessa polaridade 5'→3' decorre a leitura direcional da molécula, fundamental para a replicação e a transcrição. As bases nitrogenadas se dividem em purinas (adenina e guanina), com dois anéis, e pirimidinas (citosina, timina e uracila), com um anel; no DNA a timina pareia com a adenina por duas pontes de hidrogênio, e a citosina pareia com a guanina por três, o que explica a maior estabilidade térmica de moléculas ricas em C e G.

O DNA, graças à dupla fita antiparalela em hélice descrita por Watson e Crick em 1953, é estável e capaz de autoduplicação semiconservativa, enquanto o RNA, geralmente fita simples, assume funções variadas: o RNA mensageiro carrega o código, o transportador traz aminoácidos e o ribossômico compõe a maquinaria de tradução. Como exemplo concreto, no gene da hemoglobina a trinca CAC do DNA é transcrita no códon GUG do RNAm e traduzida como valina; na anemia falciforme, a substituição de um único par de bases troca o ácido glutâmico por valina na posição 6 da cadeia beta, alterando a forma da hemácia — prova de que a sequência de nucleotídeos determina a proteína.

Ácido ribonucleico (RNA)

Fita simples, com pentose ribose e as bases A, U, C e G — uracila no lugar da timina. É sintetizado a partir do DNA por transcrição e atua na síntese proteica. Em alguns vírus, é o próprio material genético.

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O RNA é uma molécula versátil porque, embora seja quimicamente parecido com o DNA, sua fita simples permite que ele se dobre em estruturas tridimensionais complexas, o que lhe confere funções catalíticas e regulatórias além do simples transporte de informação. Existem três tipos principais envolvidos na síntese proteica: o RNA mensageiro (mRNA), que carrega a mensagem genética do núcleo para o citoplasma; o RNA transportador (tRNA), que traz os aminoácidos correspondentes aos códons; e o RNA ribossômico (rRNA), que compõe a estrutura dos ribossomos e catalisa a formação das ligações peptídicas.

Há ainda os RNAs regulatórios, como os microRNAs, que controlam a expressão gênica, e, em alguns vírus, como o HIV, o RNA serve tanto de material genético quanto de molde para a transcriptase reversa, enzima que sintetiza DNA a partir de RNA. Como exemplo concreto, no vírus da gripe (influenza), o genoma é formado por RNA de fita simples, e é justamente essa característica que explica sua alta taxa de mutação e a necessidade de atualização anual da vacina.

Tipos de RNA

RNAm (mensageiro): leva a informação do núcleo ao ribossomo, lida em códons. RNAt (transportador): traz os aminoácidos, com o anticódon complementar. RNAr (ribossômico): compõe o ribossomo, com função também catalítica.

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Os três tipos de RNA não trabalham isoladamente: eles formam um sistema integrado de expressão gênica, em que cada molécula tem papel estrutural ou informacional bem definido. O RNAm é a única molécula que carrega a mensagem propriamente dita, transcrita a partir do DNA pela RNA polimerase; nos eucariontes, ele sofre processamento (adição de cap na extremidade 5', poli-A na 3' e remoção de íntrons por splicing) antes de sair do núcleo, o que explica por que o RNAm maduro é mais curto que o transcrito primário. Já o RNAt tem estrutura em trevo, estabilizada por pontes de hidrogênio internas, e exibe em uma extremidade o anticódon e na outra o sítio de ligação ao aminoácido específico, garantindo a correspondência códon-aminoácido.

O RNAr, associado a proteínas, forma as subunidades ribossômicas e atua como ribozima, catalisando a formação da ligação peptídica no centro peptidil-transferase.

Ácido desoxirribonucleico (DNA)

Fita dupla, com pentose desoxirribose e as bases A, T, C e G. Armazena a informação genética e é capaz de se autoduplicar. Localiza-se no núcleo dos eucariontes e também, em pequena quantidade, em mitocôndrias e cloroplastos.

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A molécula de DNA funciona como um arquivo molecular: cada fita é um polímero de nucleotídeos unidos por ligações fosfodiéster entre o fosfato de um e a desoxirribose do seguinte, e as duas fitas se mantêm unidas pelas pontes de hidrogênio entre pares complementares — sempre A–T (duas pontes) e C–G (três pontes) —, o que explica a regra de Chargaff: como A só pareia com T e C só com G, em qualquer DNA de fita dupla a quantidade de adenina é igual à de timina, e a de citosina igual à de guanina, donde A+G = T+C; é por isso que se diz que a molécula tem duas fitas antiparalelas e complementares, e uma fita serve de molde para reconstruir a outra. Essa propriedade é a base da autoduplicação semiconservativa, na qual cada molécula-filha conserva uma fita antiga e uma nova: antes da divisão celular o DNA se abre e cada fita é copiada, garantindo que as células-filhas recebam a mesma informação.

O conteúdo informacional está na sequência das bases, lida em trincas (códons); cada trecho capaz de originar um produto funcional é um gene, que pode codificar uma proteína, mas também pode gerar RNA funcional (transportador, ribossômico, regulador), ou seja, nem todo gene codifica proteína. Como exemplo concreto, o gene da hemoglobina tem sua sequência de bases transcrita em RNA mensageiro, cujos códigos definem a ordem dos aminoácidos da cadeia; uma troca de uma única base (A por T) no sexto códon substitui o ácido glutâmico pela valina e produz a anemia falciforme — uma mutação pontual com efeito drástico no organismo.

Estrutura molecular do DNA

Modelo de Watson e Crick (1953), com apoio dos dados de difração de Rosalind Franklin: dupla hélice antiparalela, com esqueleto de fosfato e açúcar por fora e bases pareadas por dentro — A-T com duas ligações de hidrogênio e C-G com três (regra de Chargaff).

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A molécula de DNA precisa ser entendida como um polímero de nucleotídeos, e cada nucleotídeo é formado por três componentes que se ligam covalentemente: uma molécula de fosfato, uma pentose (a desoxirribose, que perdeu o grupo —OH da posição 2' do carbono, diferença que a distingue da ribose do RNA) e uma base nitrogenada, que pode ser púrica (adenina e guanina, com dois anéis) ou pirimídica (citosina e timina, com um anel). A ligação entre nucleotídeos consecutivos ocorre entre o fosfato do carbono 5' de um e a hidroxila do carbono 3' do açúcar do seguinte, formando a ligação fosfodiéster, que dá ao esqueleto da cadeia uma polaridade química: a extremidade 5' expõe um fosfato livre e a 3' uma hidroxila, o que explica o antiparalelismo das duas fitas — uma corre no sentido 5'→3' e a outra no sentido 3'→5'.

As bases ficam projetadas para o interior da dupla hélice, onde o pareamento específico (A com T, C com G) é possível porque cada par tem aproximadamente o mesmo diâmetro, permitindo que a hélice mantenha seu diâmetro uniforme ao longo de toda a molécula; se uma purina pareasse com outra purina, ou duas pirimidinas entre si, a estrutura se deformaria. As duas fitas são complementares, mas não idênticas, e é justamente essa complementaridade que garante a fidelidade da replicação semiconservativa: ao se separarem, cada fita serve de molde para a síntese de uma nova fita complementar.

Replicação

É semiconservativa (Meselson e Stahl): cada nova molécula conserva uma fita antiga e uma nova. A helicase abre a dupla hélice e a DNA-polimerase sintetiza as novas fitas no sentido 5'→3' — de modo contínuo numa fita e em fragmentos de Okazaki na outra.

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A replicação do DNA ocorre antes da divisão celular, na fase S da interfase, e garante que cada célula-filha receba uma cópia fiel do genoma. Como as duas fitas são antiparalelas e complementares — uma no sentido 5'→3' e outra no 3'→5' —, a DNA-polimerase, que só adiciona nucleotídeos na extremidade 3'-OH livre, enfrenta um problema geométrico: a forquilha de replicação avança numa direção, mas as fitas correm em sentidos opostos. Na fita contínua, ou líder, a síntese acompanha o movimento da forquilha; na fita descontínua, ou retardada, ela ocorre em fragmentos de Okazaki, cada um iniciado por um primer de RNA sintetizado pela primase. A enzima remove os primers, preenche as lacunas e a DNA-ligase sela as junções, produzindo uma fita contínua.

Exemplo concreto: na origem de replicação do cromossomo de E. coli, a helicase separa as fitas, proteínas SSB estabilizam o DNA simples, a topoisomerase alivia a tensão à frente, e o complexo enzimático atua bidirecionalmente; ao final, cada uma das duas moléculas resultantes tem uma fita parental e uma nova, confirmando a semiconservação demonstrada por Meselson e Stahl com isótopos de nitrogênio em E. coli.