F4 · Aulas 3–7

Protozoários e protozooses

Protozoários

Organismos eucariontes, unicelulares e heterótrofos, tradicionalmente reunidos no reino Protista — grupo hoje reconhecido como parafilético. Vivem em ambientes úmidos, de vida livre ou parasitária, e alguns formam colônias.

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Os protozoários são, na maioria, seres microscópicos de organização celular simples, mas com maquinário intracelular completo, o que lhes permite desempenhar todas as funções vitais em uma única célula. A locomoção se dá por estruturas especializadas que também servem para classificação: flagelos (como no Trypanosoma cruzi), cílios (no Paramecium), pseudópodes (na Amoeba proteus) e, nos esporozoários, ausência de movimento próprio — caso do Plasmodium, agente da malária. A alimentação é heterotrófica por fagocitose e pinocitose, com digestão em vacúolos digestivos e controle osmótico por vacúolos contráteis, típicos de água doce.

A reprodução mais comum é assexuada por divisão binária, mas há conjugação em ciliados e ciclos com alternância de hospedeiros nos parasitas.

Características gerais

Célula eucariótica completa, sem parede celular. Nutrição por fagocitose, com digestão em vacúolos digestivos. Muitos de água doce têm vacúolo contrátil para osmorregulação. A classificação tradicional baseia-se no tipo de locomoção.

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Os protozoários formam um grupo polifilético de protistas heterotróficos, ou seja, não constituem um clado único, mas reúnem organismos com ancestralidade diversa que compartilham o modo de vida unicelular e a ausência de parede celular. Essa distinção é importante porque a antiga classificação em sarcodíneos, ciliados, flagelados e esporozoários, baseada apenas no tipo de locomoção, caiu em desuso na biologia moderna, embora ainda apareça em muitos livros didáticos e continue sendo exigida em vestibulares. Do ponto de vista estrutural, além das organelas comuns às células eucarióticas, alguns protozoários apresentam estruturas especializadas, como os cílios e flagelos (formados por microtúbulos organizados no padrão 9+2), os pseudópodes (projeções citoplasmáticas usadas tanto na locomoção quanto na captura de alimento) e os axonemas, que sustentam essas estruturas locomotoras.

Classificação

Quatro grupos, pelo modo de locomoção: rizópodes (pseudópodes), ciliados (cílios), flagelados (flagelos) e esporozoários, sem estruturas locomotoras e todos parasitas. É classificação didática, não filogenética.

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Essa divisão em quatro grupos é, antes de tudo, um recurso prático para organizar o estudo, porque agrupa organismos muito distintos quanto à forma, ao número de núcleos e ao modo de vida com base apenas no apêndice locomotor mais evidente.

Vale lembrar que os protozoários formam um conjunto artificial dentro dos eucariotos unicelulares heterotróficos, hoje espalhados por vários grupos filogenéticos, como os alveolados, os estramenopilos e os escavados, de modo que um flagelado pode estar mais próximo de uma alga do que de um ciliado. O exemplo clássico de rizópode é a ameba, que emite pseudópodes para se deslocar e para capturar alimento por fagocitose, enquanto o paramécio, ciliado, usa milhares de cílios coordenados e possui dois núcleos, um macro e um micronúcleo, o que ilustra como um mesmo grupo pode esconder complexidades bem diferentes. Já entre os flagelados, o Trypanosoma cruzi, agente da doença de Chagas, e o Trichomonas vaginalis mostram que o flagelo pode servir tanto à locomoção quanto à fixação no hospedeiro, e muitos deles vivem em simbiose com cupins ou no intestino de vertebrados sem causar dano.

Os esporozoários, como o Plasmodium, causador da malária, perderam as estruturas locomotoras na fase adulta, mas realizam deslocamento por deslizamento celular e produzem esporos, sendo todos parasitas obrigatórios com ciclos de vida complexos, alternando hospedeiros invertebrados e vertebrados.

Rizópodes ou sarcodíneos

Deslocam-se e capturam alimento por pseudópodes, projeções do citoplasma — movimento ameboide. Não têm forma fixa. Exemplos: a ameba de vida livre, a Entamoeba histolytica, causadora da amebíase, e os foraminíferos, com carapaça calcária.

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Os rizópodes ilustram o princípio de que a célula pode ser ao mesmo tempo locomotor, estômago e esqueleto, o que explica sua posição central no estudo da evolução dos eucariontes. O pseudópode não é uma estrutura permanente, mas uma região transitória do citoplasma que se forma quando filamentos de actina polimerizam empurrando a membrana plasmática para frente, enquanto a miosina contrai a porção posterior da célula — um sistema actina-miosina homólogo ao que move nossas células musculares e nossas células de defesa, o que reforça a unidade bioquímica da vida. Esse mesmo mecanismo serve à fagocitose: a ameba engloba partículas e microrganismos, formando um vacúolo digestivo que se funde a lisossomos.

Vale notar que nem todo rizópode é microscópico e solitário — os foraminíferos constroem carapaças calcárias com câmaras e podem formar depósitos de rocha (os calcários) e indicadores de prospecção de petróleo, enquanto as amebas de água doce eliminam o excesso de água por vacúolos pulsáteis, controlando a osmose.

Cilióforos ou ciliados

Movem-se por cílios numerosos e coordenados. São os protozoários mais complexos: têm dois núcleos — macronúcleo vegetativo e micronúcleo reprodutivo —, citóstoma, citopígio e vacúolo contrátil. O paramécio é o exemplo clássico; o Balantidium coli é parasita.

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Os ciliados formam um grupo de protozoários cujo nome deriva justamente de sua estrutura locomotora mais marcante, mas reduzir esse grupo aos cílios é perder de vista a razão pela qual ele é tratado como o auge da complexidade celular entre os protozoários. Trata-se de organismos unicelulares que, no entanto, apresentam uma verdadeira divisão de trabalho intracelular: diferentes regiões da membrana e do citoplasma assumem funções especializadas, como captura de alimento, excreção, osmorregulação e reprodução, algo que aproxima a célula de um ciliado de um organismo pluricelular em miniatura. Os cílios, dispostos em fileiras ao longo do corpo, batem de forma coordenada graças à transmissão do estímulo elétrico pela membrana, gerando deslocamento e, ao mesmo tempo, correntes de água que conduzem partículas alimentares até o citóstoma.

Esse é um ponto importante: a coordenação dos cílios não depende de um sistema nervoso, mas de propriedades elétricas da própria membrana celular, o que costuma ser destacado como exemplo do potencial de organização de uma única célula. Além disso, os ciliados apresentam citopígio, por onde são eliminados os resíduos da digestão, e vacúolos contráteis que realizam osmorregulação, evitando que a célula se rompa em meio hipotônico. No paramécio, exemplo clássico, esse conjunto de estruturas permite explorar ambientes aquáticos com eficiência notável. Quanto à reprodução, os ciliados exibem dois processos distintos e frequentemente cobrados em prova: a divisão binária, assexuada, e a conjugação, que constitui um processo de troca genética entre dois indivíduos.

É nesse contexto que os dois núcleos ganham sentido funcional: o macronúcleo, poliploide e ativo na transcrição gênica, comanda o metabolismo vegetativo; o micronúcleo, diploide e reservado à reprodução, sofre mitose durante a divisão binária e meiose durante a conjugação, originando os núcleos que serão trocados entre os conjugantes.

Mastigóforos (zoomastigóforos) ou flagelados

Locomoção por um ou mais flagelos. Incluem importantes parasitas humanos: Trypanosoma cruzi (doença de Chagas), Trypanosoma brucei (doença do sono), Leishmania, Giardia e Trichomonas. Alguns vivem em mutualismo no intestino de cupins.

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Os mastigóforos, também chamados de zoomastigóforos ou flagelados, constituem um grupo de protozoários cuja principal característica é a presença de flagelos — estruturas filamentosas que realizam movimento ondulatório e permitem tanto a locomoção quanto a captura de alimento e a sensibilidade ao meio. Diferentemente das amebas, que emitem pseudópodes, e dos ciliados, cobertos por cílios, os flagelados dependem de um número reduzido de flagelos (geralmente um ou dois, às vezes mais) para se deslocar. Muitos deles apresentam também uma membrana ondulante, formada pela associação do flagelo com uma expansão da membrana celular, o que amplia a eficiência do movimento em meios viscosos como o sangue e a linfa.

Apicomplexa ou esporozoários

Sem estruturas de locomoção na fase adulta e todos parasitas. Possuem o complexo apical, que permite penetrar nas células hospedeiras. Têm ciclos de vida complexos, com alternância de hospedeiros: Plasmodium, causador da malária, e Toxoplasma gondii.

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Os apicomplexos são um grupo de protozoários exclusivamente parasitas em que a ausência de flagelos, cílios ou pseudópodes na fase adulta é compensada por uma maquinaria de invasão altamente especializada: o complexo apical, formado por anel polar, conoide, roptrias, micronemas e grânulos densos, estruturas que secretam enzimas capazes de perfurar a membrana da célula hospedeira e reorganizá-la em torno do parasita, permitindo o parasitismo intracelular obrigatório. Essa característica explica por que esses organismos dependem de pelo menos um hospedeiro vertebrado e, muitas vezes, de um invertebrado vetor para completar o ciclo, alternando entre formas de reprodução assexuada e sexuada e entre estágios como esporozoíto, taquizoíto, bradizoíto e merozoíto.

O exemplo mais cobrado é o Plasmodium, agente da malária: o esporozoíto inoculado pelo mosquito Anopheles invade hepatócitos, transforma-se em esquizonte tecidual, libera merozoítos que infectam hemácias e, ao destruí-las em ciclos sincronizados, provocam febre alta, calafrios e anemia; alguns parasitas diferenciam-se em gametócitos, ingeridos pelo mosquito, onde ocorre a reprodução sexuada e a formação de novos esporozoítos.

Reprodução

Predomina a forma assexuada, rápida e eficiente. Muitas espécies apresentam também processos sexuados ou parassexuais, que promovem variabilidade genética. Nos parasitas, as duas formas costumam ocorrer em hospedeiros diferentes.

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Nos protozoários, a reprodução assexuada ocorre tipicamente por divisão binária (cissiparidade), em que o núcleo se divide por mitose e a célula se estrangula ao meio, originando dois indivíduos idênticos — é o que faz o Trypanosoma cruzi no sangue humano e o Plasmodium no interior das hemácias, garantindo multiplicação explosiva e rápida dentro do hospedeiro.

Há ainda divisão múltipla ou esquizogonia, em que o núcleo se divide várias vezes antes da separação do citoplasma, liberando de uma só vez numerosos parasitas, como ocorre nas hemácias durante a malária — cada ruptura provoca a febre característica dos acessos febris. Já a reprodução sexuada envolve conjugação em ciliados, como o Paramecium, que trocam material nuclear por pontes citoplasmáticas, e a fecundação em esporozoários, caso do próprio Plasmodium, cujo ciclo sexuado ocorre no mosquito Anopheles: o zigoto formado no intestino do inseto origina esporozoítos que migram para as glândulas salivares e são inoculados no homem.

Perceba a lógica do ciclo: a fase assexuada amplifica o número de parasitas no hospedeiro vertebrado, enquanto a sexuada, no hospedeiro invertebrado, gera variabilidade genética e permite ao protozoário escapar da resposta imune do hospedeiro. Existe também a reprodução parassexual, em que há troca de material genético sem verdadeira fecundação, ampliando a diversidade de forma alternativa.

Assexuada

Divisão binária ou cissiparidade, a mais comum, gerando dois indivíduos idênticos; brotamento; e esquizogonia ou divisão múltipla, em que o núcleo se divide várias vezes antes do citoplasma — mecanismo do Plasmodium dentro das hemácias.

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A reprodução assexuada dos protozoários merece atenção porque é justamente a via que garante a multiplicação rápida dentro do hospedeiro, e as bancas costumam explorar essa relação entre mecanismo reprodutivo e virulência. Retomando o que já foi dito sobre divisão binária, brotamento e esquizogonia, o ponto central é entender que, na assexuada, não há recombinação genética: os descendentes são clones do progenitor, o que gera vantagem numérica, mas limita a variabilidade. Compare com a reprodução sexuada, que exige dois gametas e produz descendentes geneticamente diferentes — fenômeno que aparece, por exemplo, no Plasmodium dentro do mosquito Anopheles e não no homem.

No caso da esquizogonia, o exemplo mais clássico é o Plasmodium vivax, agente da malária: dentro da hemácia humana, o trofozoíto cresce, o núcleo se divide em vários segmentos (esquizontes) e, ao final, a célula rompe liberando dezenas de merozoítos que invadem novas hemácias. Esse rompimento sincronizado coincide com os picos de febre característicos da malária terçã (a cada 48 horas) e, no caso da Plasmodium malariae, quartã (72 horas), dado muito cobrado em prova. Em Fuvest e Unicamp, costuma-se apresentar um gráfico de curva febril e pedir a identificação do protozoário e da fase reprodutiva responsável; em ENEM, o foco recai sobre a definição de esquizogonia como divisão múltipla do núcleo antes da citocinese, distinta da cissiparidade; já em provas ITA, pode-se pedir o cálculo do número de merozoítos formados a partir de um único esquizonte.

Por tudo isso, não confunda a esquizogonia (núcleos se dividem várias vezes antes do citoplasma, gerando muitos indivíduos de uma só vez) com a divisão binária típica da Amoeba e do Trypanosoma, que resulta em apenas dois.

Sexuada

Por singamia, com fusão de gametas, como no Plasmodium dentro do mosquito; ou por conjugação, no paramécio, em que dois indivíduos trocam micronúcleos sem gerar novos indivíduos — é parassexual: promove variabilidade sem reprodução.

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A reprodução sexuada nos protozoários merece atenção porque, diferentemente do que ocorre em metazoários, ela nem sempre se confunde com a multiplicação do indivíduo: muitas vezes serve apenas para gerar variabilidade genética. No caso da singamia, há fusão de dois gametas haploides formando um zigoto diploide, que depois sofre meiose; é o que ocorre em coccídios como o Plasmodium, cujo ciclo alterna fases assexuadas no hospedeiro humano e sexuadas no mosquito Anopheles. Já a conjugação dos paramécios é um processo peculiar: dois indivíduos se unem pelo citoplasma, sofrem meiose dos micronúcleos, trocam núcleos haploides migratórios e depois se separam, cada um reconstituindo seu macronúcleo e seu micronúcleo — não há formação de novos indivíduos nessa etapa, apenas recombinação gênica seguida de divisão assexuada posterior.

Vale destacar também a autogamia, em que o próprio indivíduo duplica e funde seus núcleos, comum em alguns protozoários quando isolados, e a endomitose, que amplifica o material genético sem divisão celular.

Introdução à parasitologia

Conceitos-chave: hospedeiro definitivo, onde ocorre a fase sexuada do parasita, e intermediário, onde ocorre a assexuada; vetor, que transmite o agente — biológico, quando o parasita se desenvolve nele, ou mecânico. A profilaxia depende de interromper o ciclo em algum ponto.

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A parasitologia estuda relações ecológicas interespecíficas em que um organismo vive às custas de outro, causando-lhe dano — o parasitismo. Diferente do predador, que mata a presa rapidamente, o parasita explora o hospedeiro de forma prolongada, e essa convivência gera coevolução: selecionam-se parasitas menos letais, pois matar o hospedeiro cedo demais interrompe sua própria transmissão, o que explica a cronicidade de muitas parasitoses. As relações dividem-se em monoxênicas (um só hospedeiro, ciclo direto) e heteroxênicas (dois ou mais, ciclo indireto).

Vale distinguir ainda hospedeiro paratênico ou de transporte, em que o parasita apenas se abriga sem se desenvolver, e reservatório, que mantém o agente na natureza mesmo sem o homem, dificultando a erradicação.

Dominar essa nomenclatura, portanto, é decisivo para acertar questões que cruzam ciclo biológico, transmissão e profilaxia em uma única alternativa.

Principais protozooses humanas

As de maior importância no Brasil: amebíase, leishmaniose, doença de Chagas e malária. Compartilham a associação com saneamento precário, moradia inadequada ou presença de vetores — são, portanto, doenças ligadas às condições sociais.

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As protozooses humanas são doenças causadas por protozoários — eucariontes unicelulares heterotróficos — que parasitam o homem e provocam quadros que vão de diarreias autolimitadas a infecções crônicas potencialmente fatais. O que aproxima essas doenças não é a biologia do agente, mas o modo de transmissão: cada protozoose tem um vetor, um veículo ou uma via de contaminação que depende diretamente das condições de vida da população. A amebíase, causada pela Entamoeba histolytica, ilustra bem essa lógica. O protozoário vive no intestino grosso humano e é eliminado nas fezes na forma de cisto — estrutura de resistência que sobrevive dias no ambiente.

Quando esgoto e água tratada não existem, o cisto alcança alimentos e água de consumo, fecha o ciclo fecal-oral e infecta novas pessoas; no intestino, o cisto se transforma em trofozoíto, forma móvel que invade a mucosa e causa colite, com diarreia mucossanguinolenta, cólicas e, nos casos graves, abscessos hepáticos.

Amebíase

Causada pela Entamoeba histolytica, transmitida por água e alimentos contaminados com cistos — via fecal-oral. Provoca disenteria com muco e sangue, cólicas e, em casos graves, abscessos hepáticos. Profilaxia: saneamento básico e higiene.

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A Entamoeba histolytica pertence ao filo Amoebozoa e é um protozoário que se move por pseudópodes, projeções citoplasmáticas que também lhe permitem invadir tecidos. Essa distinção é fundamental: a espécie Entamoeba coli, embora também seja um protozoário intestinal humano, é comensal e não causa doença, de modo que o diagnóstico laboratorial precisa diferenciar as duas — normalmente pelos cistos maduros, que na E. histolytica apresentam até quatro núcleos, enquanto os da E. coli chegam a oito. Vale destacar que a infecção pode ser assintomática, com o portador eliminando cistos nas fezes e servindo de fonte de contaminação para o ambiente, o que dificulta o controle da doença.

O ciclo de vida começa quando o hospedeiro ingere cistos presentes em água ou alimentos contaminados; no intestino delgado ocorre o desencistamento, liberando trofozoítas, formas móveis e ativas que colonizam o intestino grosso. Lá, os trofozoítas podem permanecer na luz intestinal sem causar dano aparente ou, em condições ainda não totalmente esclarecidas, aderir à mucosa e secretar enzimas proteolíticas capazes de destruir o epitélio, formando as chamadas úlceras em botão de colarinho — lesões típicas da amebíase intestinal, que sangram e produzem o quadro de disenteria com muco e sangue. Ao atingir a corrente sanguínea, sobretudo pela veia porta, os trofozoítas podem alcançar o fígado e formar abscessos hepáticos, complicação grave que se manifesta por dor no hipocôndrio direito, febre e hepatomegalia.

Leishmaniose

Causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitidos pela picada do flebotomíneo (mosquito-palha). Forma tegumentar, com úlceras de pele e mucosas, e visceral ou calazar, que atinge fígado e baço e pode ser fatal. O cão é reservatório importante.

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A leishmaniose é uma antropozoonose — doença que circula naturalmente entre animais e pode atingir o ser humano — cujo agente etiológico é um protozoário flagelado da ordem Kinetoplastida, o mesmo grupo de Trypanosoma cruzi e Trypanosoma brucei, o que explica a predileção das provas por comparações entre essas três doenças. O ciclo envolve dois hospedeiros: o vertebrado (homem, cão, roedores, raposas) e o invertebrado, o flebotomíneo do gênero Lutzomyia nas Américas, popularmente chamado mosquito-palha, tatuquira ou birigui. Diferentemente do Aedes e do Anopheles, o flebotomíneo é menor, silencioso, tem corpo piloso e hábitos crepusculares e noturnos, o que faz muita gente nem perceber a picada.

No inseto, o parasito assume a forma promastigota, flagelada e extracelular, que migra para as glândulas salivares; no vertebrado, após ser fagocitado por macrófagos, transforma-se na forma amastigota, sem flagelo aparente, que se multiplica dentro da célula até rompê-la e liberar novas formas que infectam outros macrófagos — daí a predileção pelo sistema fagocítico mononuclear, o que explica por que fígado, baço e medula óssea são tão atingidos na forma visceral. Como exemplo concreto, pense na leishmaniose visceral americana: em uma área endêmica do Nordeste, um cão doméstico infectado serve de reservatório e fonte de parasitos para o flebotomíneo, que ao picar uma criança introduz promastigotas; semanas depois surgem febre prolongada, hepatoesplenomegalia, anemia e emagrecimento acentuado.

Sem tratamento, a letalidade do calazar sintomático chega a cerca de 95%, número que cai drasticamente com o diagnóstico precoce e a terapia com antimoniais pentavalentes ou anfotericina B — daí a importância de não confundir "alta letalidade sem tratamento" com "doença incurável".

Quanto à profilaxia, ela é múltipla e cai com frequência: uso de repelentes e telas finas nas janelas e portas (a malha comum não barra o mosquito-palha, que é muito pequeno), evitar exposição no crepúsculo e à noite, controle do reservatório canino com inquéritos sorológicos e eutanásia de cães positivos quando indicada pelas autoridades sanitárias, manejo ambiental removendo matéria orgânica e folhiço úmido onde as larvas se desenvolvem, e diagnóstico e tratamento precoces dos casos humanos para reduzir a fonte de infecção — lembrando que não existe vacina disponível para uso humano no Brasil, o que reforça o caráter preventivo e coletivo das medidas de controle.

Doença de Chagas

Causada pelo Trypanosoma cruzi. O vetor é o barbeiro (Triatoma), mas a transmissão não se dá pela picada: ocorre pelas fezes do inseto, esfregadas na lesão. Hoje é frequente a via oral, por açaí e caldo de cana contaminados. Provoca megacólon, megaesôfago e cardiopatia.

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O Trypanosoma cruzi é um protozoário flagelado da família Trypanosomatidae, e o ponto central da doença de Chagas é entender que o parasito não invade o organismo humano pela saliva do vetor, mas sim pelas fezes contaminadas, que carregam as formas tripomastigotas metacíclicas — é por isso que se diz que o barbeiro "defeca ao picar". Ao penetrar na corrente sanguínea, o parasito invade células, sobretudo macrófagos e células musculares lisas e cardíacas, onde se transforma em amastigota e se multiplica por divisão binária, rompendo a célula e liberando novas formas tripomastigotas que disseminam a infecção; essa fase intracelular explica por que a doença tem evolução lenta e crônica, com preferência por tecido cardíaco e por neurônios do sistema nervoso autônomo entérico, o que leva à dilatação de vísceras ocas — o megaesôfago e o megacólon — e à cardiopatia chagásica, com arritmias e insuficiência cardíaca.

Malária

Causada por Plasmodium, transmitido pela fêmea do mosquito Anopheles. No Brasil, concentra-se na Amazônia. Provoca febre em acessos periódicos, que coincidem com a ruptura simultânea das hemácias, além de anemia e esplenomegalia. O ser humano é o hospedeiro intermediário.

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A malária é uma protozoose causada por protozoários do gênero Plasmodium — no Brasil, as espécies predominantes são P. vivax e P. falciparum, esta última responsável pelos casos mais graves — e sua transmissão ocorre pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, que injeta os esporozoítos na corrente sanguínea. Esses esporozoítos migram para o fígado, onde se multiplicam assexuadamente nos hepatócitos, originando merozoítos que invadem as hemácias; dentro delas, o parasita se reproduz e, ao romper as células, libera novos merozoítos e toxinas que desencadeiam os acessos febris. Esse ciclo explicativo é essencial para entender por que a febre é periódica: cada espécie tem um ritmo de ruptura das hemácias — P. vivax a cada 48 horas (febre terçã) e P. falciparum de forma irregular e mais grave.

Como exemplo concreto, um seringueiro na Amazônia que apresente febre alta a cada dois dias, calafrios e anemia deve ser testado para malária; o tratamento com artemisinina ou cloroquina (dependendo da espécie) interrompe o ciclo e evita a forma cerebral da doença.

Outras protozooses humanas

De menor incidência ou gravidade no Brasil, mas frequentes em prova: giardíase, toxoplasmose, tricomoníase e doença do sono. Variam quanto à via de transmissão — hídrica, alimentar, sexual ou por vetor —, o que determina formas distintas de profilaxia.

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Essas protozooses menos frequentes no Brasil ilustram um princípio central da parasitologia: o ciclo de vida do protozoário dita a estratégia de transmissão e, portanto, a profilaxia, de modo que reconhecer o mecanismo é mais eficiente do que decorar doenças isoladas. Na giardíase, causada por Giardia lamblia, o cisto é ingerido com água ou alimento contaminado por fezes (transmissão fecal-oral), e no intestino delgado o trofozoíto se fixa por ventosas, causando diarreia gordurosa e má absorção; a profilaxia é saneamento, filtragem da água e higiene das mãos. Na toxoplasmose, o Toxoplasma gondii tem como hospedeiro definitivo o gato, que elimina oocistos nas fezes, enquanto o homem se infecta ao ingerir cistos em carne malpassada ou oocistos em água/alimento contaminado, ou ainda por via transplacentária, sendo perigosa na gestação; a profilaxia envolve cozinhar bem a carne, lavar vegetais e evitar contato com fezes de gato.

Já a tricomoníase, causada por Trichomonas vaginalis, não forma cisto e é transmitida quase exclusivamente por via sexual, o que direciona a profilaxia ao uso de preservativo e ao tratamento do parceiro. Por fim, a doença do sono (tripanossomíase africana), causada por Trypanosoma brucei, depende da mosca tsé-tsé como vetor, e sua profilaxia é o combate ao inseto e o uso de roupas protetoras.

Giardíase

Causada pela Giardia lamblia, flagelado que se fixa na mucosa do intestino delgado. Transmissão fecal-oral, por água e alimentos contaminados, comum em creches. Provoca diarreia gordurosa e má absorção de nutrientes, com perda de peso.

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A Giardia lamblia é um protozoário flagelado com dois núcleos e formato de pera, dotado de um disco suctorial ventral que funciona como ventosa, permitindo aderir às microvilosidades do duodeno e do jejuno sem invadir a mucosa, ao contrário da Entamoeba histolytica. Ao se fixar, o parasito recobre a superfície absortiva e impede fisicamente o contato das células epiteliais com o quimo, além de competir pelos lipídios da bile e pelas enzimas digestivas. O resultado é uma esteatorreia característica: fezes volumosas, claras, fétidas e oleosas, que boiam e grudam no vaso sanitário — sinal clínico clássico da giardíase. O ciclo envolve cistos resistentes, eliminados nas fezes, e trofozoítos móveis, que se desenquistam no intestino após a ingestão.

Como exemplo concreto, surtos em creches e escolas são emblemáticos: uma criança assintomática elimina cistos e contamina trocadores, brinquedos e água filtrada inadequadamente, infectando colegas e funcionários; por isso a giardíase é uma das principais causas de diarreia crônica em ambientes coletivos fechados. O diagnóstico é feito por exame parasitológico de fezes, com coleta em dias alternados, pois a eliminação de cistos é intermitente, ou por pesquisa de antígenos nas fezes. O tratamento utiliza metronidazol ou tinidazol, e a prevenção exige saneamento básico, filtração ou fervura da água e higiene das mãos.

Toxoplasmose

Causada pelo Toxoplasma gondii, cujo hospedeiro definitivo é o gato. Transmite-se por fezes de gato, carne crua ou malpassada e verduras mal lavadas. Em geral assintomática, é grave na gestação — pode causar malformações fetais — e em imunossuprimidos.

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A toxoplasmose é uma zoonose cujo ciclo envolve dois tipos de hospedeiro: o definitivo, o gato e outros felídeos, onde o parasita realiza a reprodução sexuada e elimina oocistos pelas fezes, e os intermediários, como aves, roedores e o próprio ser humano, onde ocorre apenas a reprodução assexuada, formando cistos teciduais principalmente em músculos e no sistema nervoso. Esses cistos persistem por toda a vida e explicam por que a ingestão de carne crua ou malpassada de animais contaminados é uma via tão relevante — no Brasil, aliás, essa é considerada a principal forma de transmissão, superando o contato com gatos. O oocisto eliminado nas fezes do felino só se torna infectante após esporular no ambiente, o que exige umidade e alguns dias; por isso a limpeza diária da caixa de areia reduz o risco, e verduras mal lavadas contaminadas por solo com oocistos fecham o ciclo oral-fecal.

Tricomoníase

Causada pelo Trichomonas vaginalis, de transmissão sexual. Provoca corrimento amarelo-esverdeado, ardência e prurido, sobretudo em mulheres; nos homens, é frequentemente assintomática. Profilaxia: uso de preservativo e tratamento simultâneo dos parceiros.

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A tricomoníase é uma infecção causada pelo protozoário flagelado Trichomonas vaginalis, um parasita extracelular que coloniza o trato urogenital humano, aderindo ao epitélio por meio de proteínas de superfície e liberando enzimas que provocam a resposta inflamatória característica. Diferentemente de muitos protozoários, ele não forma cistos, sendo transmitido apenas na forma trofozoíta, o que explica a fragilidade do parasita fora do organismo e o predomínio da via sexual. O período de incubação varia de 5 a 28 dias, e a infecção pode ser assintomática em ambos os sexos, mas as mulheres apresentam sintomas com mais frequência, como corrimento bolhoso, colpite e dispareunia; nos homens, a uretrite pode ser leve ou ausente, tornando-os reservatórios silenciosos.

Doença do sono

Causada pelo Trypanosoma brucei e transmitida pela mosca tsé-tsé, restrita à África subsaariana. O parasita atinge o sistema nervoso central, provocando alterações do ciclo do sono, confusão mental e, sem tratamento, coma e morte.

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A doença do sono, ou tripanossomíase humana africana, é causada por duas subespécies do Trypanosoma brucei: o T. b. gambiense, responsável pela forma crônica na África Ocidental e Central, e o T. b. rhodesiense, que provoca a forma aguda na África Oriental. A transmissão ocorre pela picada da mosca tsé-tsé (Glossina spp.), mas também há relatos de transmissão vertical e por transfusão sanguínea. O ciclo é do tipo heteroxeno: no inseto, o parasita se multiplica no intestino e migra para as glândulas salivares na forma infectante (tripomastigota metacíclico); no homem, dissemina-se pelo sangue e linfa, atingindo o sistema nervoso central após atravessar a barreira hematoencefálica.