F2 · Aulas 29–32

Procariontes: bactérias e arqueas

Classificação

Compreendem os domínios Bacteria e Archaea, antes reunidos no reino Monera — agrupamento hoje abandonado por não ser monofilético. Diferem entre si na parede celular, nos lipídios de membrana e em características moleculares fundamentais.

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A classificação dos procariontes é hoje feita principalmente pela comparação de sequências de RNAr 16S, molécula universal, estável e de evolução lenta, complementada por dados de genômica comparativa, como a presença de genes de histórias e de enzimas metabólicas específicas; foi essa abordagem que revelou que Archaea e Bacteria não são grupos irmãos, pois as arqueas compartilham com os eucariontes um ancestral mais recente do que com as bactérias, o que sustenta a hipótese do eócito e o modelo de dois domínios, com as arqueas mais próximas de nós do que das bactérias, algo que o antigo reino Monera simplesmente não capturava.

Além disso, dentro de cada domínio a taxonomia segue os mesmos critérios da zoologia e botânica, com nomenclatura binomial em itálico e categorias hierárquicas de domínio a espécie, e o Sequenciamento de Genoma Completo tornou-se o padrão-ouro, substituindo testes bioquímicos antigos, como a coloração de Gram, que hoje é apenas um critério auxiliar de identificação clínica e não de classificação evolutiva.

Bactérias

Procariontes unicelulares presentes em todos os ambientes, incluindo o corpo humano — a microbiota supera em número as nossas próprias células. A maioria é inofensiva ou benéfica; apenas uma minoria é patogênica.

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As bactérias são procariontes, ou seja, células sem núcleo delimitado por membrana e sem organelas membranosas, com o material genético organizado em um único cromossomo circular disperso no citoplasma, além de frequentemente portarem pequenos plasmídeos que carregam genes acessórios, como os de resistência a antibióticos. Essa organização celular simples, porém altamente eficiente, explica por que elas crescem e se dividem rapidamente por divisão binária, formando colônias em poucas horas, e por que conseguem ocupar praticamente qualquer nicho ecológico, das fontes hidrotermais às fossas nasais humanas.

Célula bacteriana

Componentes: parede celular de peptideoglicano, membrana plasmática, nucleoide com DNA circular, plasmídeos, ribossomos 70S e citoplasma. Podem ter cápsula (que aumenta a virulência), flagelos, fímbrias e pili sexual. Não têm organelas membranosas.

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A célula bacteriana é um exemplo clássico de organização procariótica, e o que a define não é apenas a ausência de carioteca, mas um arranjo funcional em que a compartimentalização ocorre sem membranas internas. O nucleoide não é apenas DNA circular solto: ele está associado a proteínas que o compactam e o ancoram à membrana plasmática, o que garante a segregação correta do material genético durante a divisão por fissão binária. Nesse processo, a célula cresce, replica o cromossomo e forma o septo divisório, muitas vezes dependente de proteínas como FtsZ, que lembram o citoesqueleto eucariótico. Já os plasmídeos carregam genes acessórios, como resistência a antibióticos, e podem ser transferidos horizontalmente pela conjugação via pili sexual, mecanismo central na disseminação de resistência bacteriana.

Diversidade morfológica

Quatro formas básicas: cocos (esféricos), bacilos (bastonetes), espirilos (espiralados rígidos) e vibriões (vírgula). Podem formar agrupamentos: diplococos, estreptococos (em cadeia) e estafilococos (em cacho) — o que ajuda na identificação clínica.

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A morfologia bacteriana não é apenas descritiva: ela reflete adaptações evolutivas ligadas à captação de nutrientes, motilidade e estratégias de sobrevivência. A elevada relação superfície/volume dos cocos favorece a difusão rápida de substâncias, enquanto os bacilos, com maior volume citoplasmático, tendem a explorar ambientes com nutrientes mais dispersos. As formas espiraladas dividem-se em espirilos, com corpo rígido sustentado por filamento axial interno, e espiroquetas, de corpo flexível e parede mais delgada — distinção que a versão anterior tratou de modo impreciso ao chamar ambos de "espiralados flexíveis". As espiroquetas, como Treponema pallidum, agente da sífilis, apresentam endoflagelos que conferem movimento de saca-rolhas, essencial para penetrar tecidos.

Já os vibriões, curvos em vírgula, incluem Vibrio cholerae, cuja forma e flagelo polar único facilitam a locomoção em meio aquoso. Quanto aos agrupamentos, eles resultam do plano de divisão celular: divisão em um único plano gera diplococos e estreptococos; em dois ou três planos perpendiculares, originam-se estafilococos e sarcinas. Esses arranjos têm valor diagnóstico direto — a visualização de diplococos Gram-positivos em líquido cefalorraquidiano sugere Streptococcus pneumoniae, enquanto cachos Gram-positivos em secreção purulenta apontam para Staphylococcus aureus.

Dominar esses pontos permite interpretar desde lâminas histológicas até questões discursivas sobre mecanismos de invasão tecidual.

Diversidade metabólica

É a maior de todos os grupos de seres vivos: há bactérias autótrofas e heterótrofas, aeróbias e anaeróbias, capazes de usar praticamente qualquer fonte de energia, inclusive compostos inorgânicos e petróleo. Essa versatilidade explica sua onipresença.

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A diversidade metabólica procarionte se organiza, didaticamente, em dois eixos que as provas adoram cruzar: a fonte de carbono (autotrofia, quando o carbono vem do CO₂, versus heterotrofia, quando vem de compostos orgânicos) e a fonte de energia (fototrofia, luz; quimiotrofia, oxidação de compostos químicos), cada um podendo ainda ser aeróbio ou anaeróbio conforme o aceptor final de elétrons. Daí surgem categorias como fotoautótrofos (cianobactérias, que fazem fotossíntese liberando O₂), foto-heterótrofos (bactérias púrpuras não sulfurosas), quimioautótrofos (nitrificantes como Nitrosomonas e Nitrobacter, que oxidam amônia e nitrito e sustentam o ciclo do nitrogênio) e quimio-heterótrofos (a maioria, incluindo decompositores e patógenos).

O exemplo concreto mais cobrado é o das bactérias nitrificantes: elas obtêm energia oxidando compostos inorgânicos e usam essa energia para fixar CO₂, ou seja, são quimioautótrofas aeróbias — um metabolismo que nenhum animal ou planta realiza e que explica por que a fertilidade do solo depende delas. Some-se a isso a fermentação (como a alcoólica, em Saccharomyces, e a láctica) e a respiração anaeróbia, em que bactérias usam nitrato, sulfato ou CO₂ como aceptor final de elétrons, permitindo vida em pântanos, intestinos e fontes hidrotermais.

Categorias nutricionais

Fotoautotróficas: usam luz e $\mathrm{CO_2}$, como as cianobactérias, que oxigenaram a atmosfera primitiva. Quimioautotróficas: oxidam compostos inorgânicos, como as nitrificantes. Heterotróficas: decompositoras (saprófitas), simbiontes ou parasitas.

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As categorias nutricionais dos procariontes organizam-se em dois eixos independentes: a fonte de energia (fototrofia, quando há luz, ou quimiotrofia, quando há oxidação de compostos químicos) e a fonte de carbono (autotrofia, quando o carbono vem do $\mathrm{CO_2}$, ou heterotrofia, quando vem de moléculas orgânicas). Combinando os dois critérios surgem quatro grupos: fotoautotróficos, foto-heterotróficos, quimioautotróficos e quimio-heterotróficos. Vale detalhar os dois menos intuitivos. Os quimioautotróficos obtêm energia oxidando compostos inorgânicos reduzidos e usam essa energia para fixar $\mathrm{CO_2}$; as bactérias nitrificantes ilustram bem: Nitrosomonas oxida amônio a nitrito e Nitrobacter oxida nitrito a nitrato, etapas essenciais do ciclo do nitrogênio e que acidificam o solo.

Já os quimio-heterotróficos (a maioria das bactérias, incluindo as decompositoras) oxidam matéria orgânica tanto como fonte de energia quanto de carbono.

Produção de energia

Respiração aeróbia, com $\mathrm{O_2}$ como aceptor final; respiração anaeróbia, usando nitrato ou sulfato; e fermentação, com aceptor orgânico. Muitas bactérias industriais são fermentadoras — os lactobacilos do iogurte e do queijo.

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A diversidade metabólica das bactérias e arqueas quanto à produção de energia vai muito além da simples escolha do aceptor final de elétrons, envolvendo estratégias distintas de captação e conversão energética que refletem a ocupação de nichos ecológicos variados. Enquanto a fermentação gera ATP exclusivamente por fosforilação ao nível do substrato, com rendimento baixo de apenas 2 ATPs por glicose, as respirações aeróbia e anaeróbia acoplam a oxidação de substratos a uma cadeia transportadora de elétrons, gerando um gradiente de prótons através da membrana e produzindo ATP por quimiosmose — mecanismo descrito por Peter Mitchell e que rende até 38 ATPs na respiração aeróbia.

Esse gradiente eletroquímico é a verdadeira moeda energética intermediária, e diferentes aceptores têm potenciais de redução distintos: o oxigênio, por ter o maior potencial, libera mais energia, seguido pelo nitrato e pelo sulfato, o que explica por que bactérias anaeróbias crescem mais lentamente.

Utilização do gás oxigênio

Aeróbias estritas: exigem $\mathrm{O_2}$. Anaeróbias estritas: morrem em sua presença, como a do tétano e a do botulismo. Facultativas: usam oxigênio quando há e fermentam quando falta. Microaerófilas: precisam de baixas concentrações.

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A base bioquímica dessa classificação está nas enzimas que cada procarionte possui para lidar com o oxigênio: quem tem superóxido dismutase, catalase e peroxidase consegue neutralizar as espécies reativas de oxigênio (radicais superóxido, peróxido de hidrogênio) geradas pelo próprio metabolismo aeróbio e, por isso, sobrevive na presença de $\mathrm{O_2}$; quem não as tem sofre dano oxidativo em DNA, proteínas e lipídios de membrana. Entre os extremos já citados existe ainda um grupo intermediário, as anaeróbias aerotolerantes, que não usam oxigênio nem são mortas por ele — apenas o toleram, como certas bactérias do gênero Bacteroides da flora intestinal.

Observe que a classificação é fisiológica, não filogenética: duas bactérias parentes próximas podem ocupar categorias diferentes, e uma mesma espécie pode mudar de comportamento conforme o ambiente. Exemplo concreto e clínico é o Clostridium tetani: seus esporos sobrevivem no solo, mas só germinam e produzem a tetanospasmina em tecidos profundos e mal vascularizados, onde o baixo potencial redox mantém o ambiente anaeróbio — exatamente por isso ferimentos sujos, profundos e com tecido necrosado, como os de pregos enferrujados, são de risco. Em contrapartida, as Pseudomonas aeruginosa são aeróbias estritas e prosperam justamente em feridas bem oxigenadas e em biofilmes de queimaduras.

Reprodução

Assexuada, por divisão binária ou cissiparidade, extremamente rápida — em condições ideais, a cada 20 minutos, o que gera crescimento exponencial. Gera clones, e por isso a variabilidade depende de mutações e de mecanismos parassexuais.

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A divisão binária começa com a replicação do cromossomo circular único, ancorado à membrana plasmática; as duas cópias se separam à medida que a célula alonga, forma um septo proteico (FtsZ, análogo à tubulina eucariótica) e se estrangula em duas células-filhas idênticas. Em bactérias como Escherichia coli, isso explica por que uma única célula pode gerar, em poucas horas, colônias visíveis em placa de Petri. Mas há variações: algumas bactérias fazem brotamento (como Hyphomicrobium) ou esporulação (gênero Bacillus), e as arqueas também se dividem por binária, porém usando maquinaria de septo distinta, mais próxima da eucariótica — o que reforça o parentesco evolutivo das arqueas com os eucariontes.

Vale lembrar que a rapidez reprodutiva, associada a taxas de mutação, é o motor da resistência a antibióticos: em poucas gerações, uma mutação pontual que altere o alvo do fármaco se propaga por seleção natural, tema central em saúde pública.

Variabilidade genética

Além da mutação, três processos parassexuais transferem DNA horizontalmente: transformação, conjugação e transdução — esta mediada por bacteriófago. São eles que espalham rapidamente os genes de resistência a antibióticos entre bactérias, mesmo de espécies diferentes.

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A variabilidade genética em procariontes não depende apenas de mutações ao acaso, que surgem em taxas baixas e geralmente atingem um único gene por vez; o grande salto adaptativo vem da recombinação entre linhagens distintas, que combina variantes já testadas e selecionadas em outros genomas.

É bom lembrar que, em sentido estrito, não existe sexo em bactérias — não há fusão de gametas nem formação de zigoto —, por isso se fala em parassexualidade, termo já usado no resumo e que agora convém detalhar: a transformação ocorre quando a célula capta DNA livre do ambiente, geralmente de bactérias mortas e lisadas, e o incorpora ao seu genoma por recombinação homóloga; a conjugação exige contato físico via pili e transferência de plasmídeos ou de fragmentos cromossômicos, sendo o mecanismo mais eficiente para espalhar genes de resistência; a transdução, mediada por bacteriófagos, pode ser generalizada, quando qualquer fragmento de DNA bacteriano é empacotado por erro no ciclo lítico, ou restrita, quando o vírus carrega apenas genes específicos adjacentes ao sítio de integração do prófago.

Transformação

A bactéria absorve DNA livre do meio, liberado por outra bactéria morta, e o incorpora ao próprio genoma. Foi o fenômeno observado por Griffith em 1928 com pneumococos, e depois usado por Avery para demonstrar que o DNA é o material genético.

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A transformação é um dos três mecanismos clássicos de transferência horizontal de genes em procariontes, ao lado da conjugação e da transdução, e sua importância está em permitir que uma bactéria adquira informação genética sem ser descendente da doadora. Para que ocorra, é preciso que uma célula esteja em estado de competência, ou seja, capaz de captar DNA exógeno da vizinhança; essa competência costuma surgir em condições específicas de estresse, como alta densidade populacional, limitação de nutrientes ou exposição a antibióticos, e envolve a expressão de proteínas de superfície que ligam e internalizam fragmentos de DNA. Uma vez dentro da célula, o fragmento geralmente é de fita dupla e precisa ser processado: uma fita é degradada e a outra pode se recombinar com regiões homólogas do cromossomo bacteriano, integrando-se de forma estável ao genoma.

Como exemplo concreto e atual, vale lembrar a disseminação de genes de resistência a antibióticos entre bactérias de espécies diferentes, como a transferência de genes codificadores de beta-lactamases, que conferem resistência a penicilinas e cefalosporinas; esse processo ajuda a explicar por que a resistência se espalha tão rapidamente em ambientes hospitalares e por que o uso indiscriminado de antibióticos seleciona linhagens multirresistentes.

Outro caso clássico é a própria experiência de Griffith com pneumococos, na qual bactérias não virulentas adquiriam a cápsula de bactérias virulentas mortas e se tornavam capazes de causar doença, evidência que depois fundamentou a identificação do DNA como princípio transformante por Avery, MacLeod e McCarty.

Conjugação

Transferência direta de DNA — em geral um plasmídeo — de uma bactéria doadora a uma receptora, através de uma ponte citoplasmática formada pelo pili sexual. É o principal mecanismo de disseminação de plasmídeos de resistência a antibióticos.

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A conjugação é um processo parassexual que, diferentemente da reprodução assexuada por divisão binária, não gera descendentes por si só, mas promove recombinação genética ao transferir material hereditário entre células geneticamente distintas, aumentando a variabilidade sobre a qual a seleção natural atua. O evento depende de um fator de fertilidade (F), geralmente um plasmídeo que carrega os genes necessários à formação do pili e à transferência. Bactérias portadoras desse fator são chamadas F+ e atuam como doadoras; as que não o possuem são F− e funcionam como receptoras. Durante o contato, o plasmídeo replica-se por replicação do tipo círculo rolante: uma fita é cortada, transferida pelo canal do pili e copiada na receptora, de modo que esta se torna F+ — sem, contudo, alterar o cromossomo bacteriano.

Quando o fator F se integra ao cromossomo, forma-se uma cepa Hfr (alta frequência de recombinação), capaz de transferir genes cromossômicos, o que gera recombinantes verdadeiros.

Importância das bactérias

São indispensáveis à vida na Terra: reciclam matéria, fixam nitrogênio, participam de processos industriais e integram a microbiota humana. Apenas uma pequena fração causa doenças — mas essas têm enorme impacto histórico e sanitário.

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As bactérias atuam como verdadeiros motores biogeoquímicos dos ciclos do carbono, nitrogênio, enxofre e fósforo, e é justamente essa capacidade metabólica diversa que explica sua onipresença — de fontes hidrotermais a solos áridos.

Vale lembrar que as arqueas, embora muitas vezes estudadas ao lado das bactérias por serem também procariontes, seguem estratégias próprias: as metanogênicas, por exemplo, produzem metano no rúmen de bovinos e em pântanos, enquanto as halófilas e termoacidófilas revelam adaptações extremas que interessam à biotecnologia e à astrobiologia.

Dominar essa dupla face — a bactéria como aliada ecológica e biotecnológica e como agente patogênico — é o que garante acerto em questões interdisciplinares que exigem leitura atenta de experimentos e de dados sobre saúde pública.

Ecológica

Atuam como decompositoras, devolvendo nutrientes ao ambiente, e como fixadoras de nitrogênio — as do gênero Rhizobium, em nódulos de leguminosas. As cianobactérias produzem oxigênio, e as quimiossintetizantes sustentam ecossistemas abissais.

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As bactérias sustentam a biosfera muito além da decomposição e da fixação de nitrogênio: elas reciclam matéria em escala planetária e fecham ciclos biogeoquímicos dos quais toda a vida depende. No ciclo do carbono, bactérias heterotróficas mineralizam matéria orgânica morta em CO₂, enquanto metanogênicas (Methanobacterium) e metanotróficas regulam o metano, gás-estufa cerca de 25 vezes mais potente que o CO₂. No ciclo do nitrogênio, atuam em todas as etapas: fixação (Rhizobium, Azotobacter), nitrificação (Nitrosomonas e Nitrobacter, convertendo amônia em nitrito e nitrato) e desnitrificação (Pseudomonas, devolvendo N₂ à atmosfera).

No ciclo do enxofre, Thiobacillus oxida compostos sulfurosos, e no fósforo as bactérias solubilizam fosfato, tornando-o assimilável. A biorremediação é o exemplo concreto mais cobrado: após o vazamento da Exxon Valdez (Alasca, 1989), aplicou-se fertilizante nitrogenado e fosfatado nas praias para estimular bactérias autóctones capazes de degradar hidrocarbonetos do petróleo, acelerando a limpeza naturalmente — tecnologia depois usada em derramamentos e na descontaminação de solos por metais e pesticidas.

Há ainda a simbiose com plantas e animais: microrganismos do rúmen de herbívoros digerem celulose, e corais dependem de bactérias para fixar nitrogênio em águas oligotróficas.

Econômica

Produção de alimentos fermentados — iogurte, queijo, chucrute, vinagre —, antibióticos, insulina humana por bactérias transgênicas, tratamento de esgoto, biorremediação de derramamentos de petróleo e mineração biológica.

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A relevância econômica das bactérias vai muito além dos produtos que elas fabricam diretamente: está no fato de que elas funcionam como verdadeiras usinas metabólicas vivas, capazes de realizar transformações químicas que a indústria sozinha faria a custos altíssimos ou nem conseguiria executar. É isso que explica por que gigantes da biotecnologia cultivam bilhões de células bacterianas em biorreatores para produzir substâncias de alto valor agregado, como enzimas industriais (detergentes, produção de papel, processamento de alimentos) e até biocombustíveis, caso do etanol celulósico, em que bactérias e outros microrganismos degradam celulose de bagaço e palha em açúcares fermentáveis.

Bacterioses

Principais no Brasil: tuberculose, hanseníase, tétano, coqueluche, difteria, leptospirose, meningite bacteriana, cólera, botulismo, sífilis e gonorreia. Tratam-se com antibióticos, e várias são preveníveis por vacina — BCG, DTP, dupla adulto.

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As bacterioses são doenças causadas por bactérias patogênicas, organismos procariontes que se instalam no hospedeiro, multiplicam-se e produzem danos por mecanismos variados — invasão direta de tecidos, liberação de toxinas ou indução de resposta inflamatória exacerbada.

Vale distinguir dois tipos de ação: as toxinas, como no tétano (Clostridium tetani) e no botulismo (Clostridium botulinum), que causam sintomas mesmo sem grande multiplicação bacteriana, e a invasão tecidual propriamente dita, como na tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), em que a bactéria se aloja nos pulmões e provoca lesões. A transmissão também varia: algumas são respiratórias (tuberculose, coqueluche), outras por contato (hanseníase, sífilis), por água e alimentos contaminados (cólera, leptospirose) ou por ferimentos (tétano).

Arqueas

Procariontes com parede sem peptideoglicano e lipídios de membrana ramificados. Muitas são extremófilas: termófilas de fontes hidrotermais, halófilas de salinas e metanogênicas anaeróbias, presentes em pântanos e no rúmen. São mais próximas dos eucariontes que das bactérias e não causam doenças conhecidas.

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As arqueas formam um dos três domínios da vida e se distinguem das bactérias sobretudo pela bioquímica única: em vez de peptideoglicano, suas paredes contêm pseudomureína, proteínas S-layer ou outras glicoproteínas, e seus lipídios de membrana ligam cadeias de fitanol ao glicerol por ligação éter, com ramificações que estabilizam a membrana em condições extremas. Essa arquitetura explica a tolerância a temperaturas acima de 100 °C em fontes hidrotermais, como em Methanocaldococcus jannaschii, isolada de chaminés vulcânicas submarinas, e a sobrevivência em salinidades saturadas no caso de Halobacterium salinarum, que usa bombas de prótons dependentes de luz (bacteriorrodopsina) para gerar ATP em salinas.

A metanogênese, por sua vez, ocorre em anaerobiose estrita pela via da coenzima M, com exemplo em Methanobrevibacter smithii, habitante do rúmen e do intestino humano, onde consome hidrogênio e gás carbônico produzindo metano. A hipótese do eócito propõe que um ramo de arqueas (possivelmente relacionado às Asgard) teria originado os eucariontes por endossimbiose, o que explica a presença de histonas em muitas arqueas — embora não em todas, sendo essa generalização um erro comum —, além de DNA associado a proteínas e componentes da maquinaria de tradução mais próximos dos eucariotos.