Príons
Agentes infecciosos formados apenas por proteína, sem nenhum ácido nucleico — descoberta que rendeu o Nobel a Stanley Prusiner e que, a princípio, contrariava o dogma de que todo agente infeccioso precisa de material genético para se replicar.
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Os príons são proteínas de membrana celular codificadas por um gene do próprio hospedeiro, o gene PRNP, que em condições normais produzem a proteína PrP^C (celular), rica em hélices alfa e solúvel. O que torna o príon infeccioso não é uma nova informação genética, mas sim uma mudança conformacional: a PrP^Sc (scrapie) é a mesma sequência de aminoácidos em arranjo tridimensional diferente, com predomínio de folhas beta, insoluível e resistente à degradação. Essa forma alterada atua como molde, convertendo moléculas normais de PrP^C em PrP^Sc por simples contato — um mecanismo de replicação essencialmente pós-traducional, sem transcrição nem tradução de novo, o que explica por que o agente não precisa de ácido nucleico e por que é tão resistente a radiação ionizante, calor e desinfetantes comuns.
Como exemplo concreto, cite-se a doença da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina), transmitida a humanos pela ingestão de tecido nervoso contaminado e responsável pela variante da doença de Creutzfeldt-Jakob; o cérebro afetado apresenta vacúolos que dão o aspecto esponjoso ao tecido, com neurodegeneração progressiva, demência e óbito.
Vale lembrar que kuru e scrapie foram fundamentais para a formulação dessa teoria.
Mecanismo de ação
O príon é uma forma mal dobrada de uma proteína normal do sistema nervoso (PrP). Ao entrar em contato com a forma normal, induz sua conversão para o formato patológico, numa reação em cadeia que não envolve DNA nem RNA — a informação está na conformação da proteína, não na sequência genética.
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O ponto central do mecanismo é que a proteína PrP normal (PrP<sup>C</sup>) é rica em hélices alfa e solúvel, enquanto a forma infecciosa (PrP<sup>Sc</sup>) adota predominantemente folhas beta pregueadas, tornando-se insolúvel, resistente a proteases e propensa a agregar. Esses agregados formam placas amiloides no tecido nervoso, levando à morte neuronal e à vacuolização característica das encefalopatias espongiformes. É importante lembrar que o termo "mutação" aqui se refere à conformação e não à sequência de aminoácidos: existem diferentes cepas ou variantes conformacionais de PrP<sup>Sc</sup>, que se distinguem pelo padrão de dobramento, pelo perfil de glicosilação e pela região cerebral que atingem — é isso que explica por que a mesma proteína pode gerar doenças com tempos de incubação e quadros clínicos distintos, como a doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica e a variante ligada ao consumo de carne bovina contaminada pela encefalopatia espongiforme bovina ("mal da vaca louca").
Como exemplo concreto, cite-se o kuru, estudado por Carleton Gajdusek na Papua-Nova Guiné: transmitido por rituais funerários de canibalismo, revelou que o agente não era um vírus, pois resistia a radiações e formaldeído, mas perdia infectividade com agentes que desnaturam proteínas — evidência crucial para a hipótese do "príon" proposta por Stanley Prusiner, que lhe rendeu o Nobel de 1997.
Encefalopatias espongiformes
Doenças neurodegenerativas causadas por príons: a doença da "vaca louca" (encefalopatia espongiforme bovina), sua forma humana — a variante da doença de Creutzfeldt-Jakob —, o kuru e o scrapie dos ovinos. Provocam degeneração progressiva do encéfalo, com aspecto esponjoso ao exame.
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Os príons são agentes infecciosos acelulares formados exclusivamente por proteína, sem ácido nucleico — o que os torna únicos entre os patógenos. Trata-se de uma proteína normal do sistema nervoso central, a PrP^C, que sofre mudança conformacional e se converte na forma patogênica PrP^Sc, rica em folhas beta-pregueadas. Essa forma alterada é extremamente resistente a proteases, calor e radiação, e ao entrar em contato com a forma normal a induz a se converter, num efeito em cadeia que acumula agregados proteicos e leva à morte neuronal. Não há resposta imune nem tratamento: o organismo não reconhece a PrP^Sc como estranha, pois é uma versão modificada de proteína própria.
As encefalopatias espongiformes transmissíveis têm longo período de incubação, curso sempre fatal e deixam o tecido cerebral com vacuolização característica, o aspecto "esponjoso".
Outro caso marcante foi o surto britânico de encefalopatia espongiforme bovina nos anos 1980-90, ligado à alimentação do gado com ração contendo farinha de ossos e carcaças de ovinos infectados pelo scrapie, o que depois gerou a variante humana da doença de Creutzfeldt-Jakob, sobretudo em jovens. Vale diferenciar o quadro clássico de Creutzfeldt-Jakob, que pode ser esporádico, hereditário ou iatrogênico, da forma variante ligada à "vaca louca".